Recentemente passamos pelo dia do irmão, por isso achamos super válido compartilhar este artigo da Revista pais e Filhos que fala do assunto.

Reflexão! 

Porque destruíste e minha vida? perguntava à mãe um rapazinho precoce, com apenas quatro anos de idade e um irmão acabado de nascer. Resumia assim todo o seu sofrimento e deceção ao ver desmoronar um mundo que até aí lhe pertencia em exclusivo. Na verdade, não há volta a dar: o nascimento de um irmão mais novo é sentido pelo mais velho como uma verdadeira intrusão num mundo seguro que assim se vira do avesso. Nesse lugar de amor exclusivo de que era o centro, o irmão «mais velho» sente perdidas todas as suas referências e armas face ao minúsculo intruso que lhe rouba a tranquilidade e o sono. Suporta mal ver a mãe e o pai debruçarem-se sobre o berço, sente-se dilacerado com os carinhos e os cuidados dados a esse novo ser que agora ocupa todo o colo da mãe.

Porém, não é o primeiro nem será o último no mundo a sofrer este «cataclismo interior», que não é mais do que o passaporte para a fraternidade e a partilha. É a condição natural de todos os primeiros filhos. Mas até chegar a usufruir plenamente do prazer de socializar, o filho mais velho terá que fazer um caminho nem sempre fácil, pontuado de rivalidades e ciúmes, sentimentos indispensáveis para uma boa construção psíquica apesar da dor que comportam. Senão, vejamos. Longe de ser negativa, sublinha o pedopsiquiatra francês Marcel Rufo, a rivalidade é a mola que permite à criança crescer e «vingar» de uma forma saudável dentro da fratria. Não sendo exclusivo dos filhos mais velhos, o velho ciúme, dor de cabeça de muitos pais e tormento particular dos primogénitos, não só é natural, como é sinal de que tudo «vai bem». Problema seria se uma criança pequena não mostrasse nenhuma agressividade em relação ao bebé que acaba de nascer. O ciúme é também necessário para que o mais velho faça o luto do sentimento do pleno poder sentido graças à condição de «pequeno rei», o que lhe permitirá aprender o difícil, mas necessário exercício da partilha.

O filho mais velho
Profissionais garantem que, na observação dos pais que os vêm consultar, é visível que estes se sentem, de facto, muito mais à vontade com o segundo do que com o primeiro filho, o que poderá ter a ver, por exemplo, com as circunstâncias muito específicas em que o primogénito vem ao mundo: «pais inexperientes, que vão ser pela primeira vez pai e mãe, com toda a responsabilidade psíquica e social que isso acarreta», assegura Otília Monteiro Fernandes, Professora Auxiliar do Departamento de Educação e Psicologia da UTAD. Tudo é diferente e novo, em especial para a mãe que «vive a sua primeira gravidez e primeiro parto, com os medos, as expectativas, a curiosidade e as alegrias» que este novo acontecimento implica. Para o bebé, «ser o primeiro a «abrir» aquela mãe, pode não ser fácil», acrescenta.

Acrescente-se que a «inexperiência parental» leva a alguns «excessos» o que se reflecte, por exemplo, na quantidade de «idas a consultas e urgências médicas (e até psicológicas) pelas mínimas razões». Os pais sentem «necessidade de apoio e de conselhos de outros adultos que já foram pais, ou de técnicos especializados. Naturalmente, «os segundos e restantes filhos já desfrutam da «sabedoria/aprendizagem» parental entretanto adquirida através do primeiro filho».
Contudo, ao contrário do que alguns possam pensar, o «excesso de atenção e preocupação parentais não é dramático nem pernicioso», sublinha Otília Monteiro Fernandes, pela simples razão de que ter «a devoção e exclusividade dos «dois pares de olhos» dos pais só fazem bem à criança primogénita, uma vez que lhe permitem que ela cresça confiante e segura para explorar o meio ambiente, o que lhe incrementa o desenvolvimento afetivo-cognitivo» . De facto, alguns estudos revelaram que os filhos mais velhos são «mais inteligentes», revelação que não nos permite, contudo, fazer demasiadas generalizações. São certamente mais responsáveis, segundo a experiência e a opinião de vários autores, entre os quais a professora Otília Monteiro Fernandes. Fomentada pelos pais, esta responsabilidade pode surgir «como forma de compensar o primogénito das perdas sofridas aquando da «destronação», quando nasce o segundo filho, como a «exclusividade do pais».

Estes incentivam o filho mais velho a ajudar a cuidar do mais novo «não só para minimizarem os conflitos fraternais, como também para, paulatinamente, irem dizendo ao primogénito que, de ora em diante, já não é o seu único filho, que tem um irmão com quem terá de saber (com)partilhar o espaço familiar». Segundo a psicóloga, a aprendizagem «da partilha e da sociabilidade» é crucial, uma opinião que, de resto, reúne o consenso de todos os especialistas. Em causa está a maneira como irão, mais tarde, viver as suas relações afetivas, amorosas, de amizade e companheirismo. A socialização e a partilha na infância, são as fundações na nossa vida relacional de adultos.
Por isso, mesmo sozinhos, os filhos únicos deveriam viver numa casa aberta ao exterior, e manter regularmente contactos com amigos, primos e primas. Mas atenção, alertam psicólogos e pedopsiquiatras, há que respeitar a personalidade de cada criança, levando em conta as suas paixões, interesses ou temperamentos. Alguns são mais seletivos e introvertidos, outros preferem a companhia dos amigos, os desportos coletivos e as colónias de férias. Uns e outros não devem ser levados à força a mudarem os seus comportamentos porque é suposto ser mais saudável, mais apropriado ou mais em conformidade com as expectativas dos pais.

Os perigos da má gestão

Nenhum filho mais velho está livre de enfrentar a crise que lhe provoca o nascimento de um irmão mais novo, mas cabe aos pais geri-lo da melhor forma, tendo o cuidado de não acirrar as rivalidades e promover desigualdades, manifestando preferências, fazendo comparações dolorosas, ignorando a dor da rejeição de alguns filhos, ou não permitindo que exteriorizem o seu sofrimento e ciúme, em particular, sublinhe-se, o do filho mais velho face ao recém-nascido. Esta «prova terrível», como alguns a qualificam, deve ser inteiramente apoiada por pais atentos e sensíveis, que consigam colocar-se na pele da criança e tentar sentir o que ela sente, prepararem-na convenientemente para essa primeira fase de perdas e de confrontos.
Os pais devem, sobretudo, assegurarem-na de que continua a ser amada. Quanto menos ela duvidar da capacidade que eles têm de amarem os dois filhos ao mesmo tempo, menos ansiosa se irá sentir. No entanto, os ciúmes, são, como acima se refere, uma atitude reativa normal, mesmo que a sua manifestação se torne muitas vezes difícil de aceitar e «aguentar» pelos pais, confusos e cansados por terem de dividir a atenção e o afeto entre o mais velho e o mais novo, e ainda de prestar cuidados a uns e outros.

Mal gerida, a relação entre todos os irmãos, pode trazer mágoas que se arrastam uma vida inteira e que atestam do muito sofrimento passado entre sentimentos de rejeição, baixa autoestima e falta de confiança. Convém que os pais tenham atenção aos sentimentos negativos que os seus filhos desenvolvem sem exteriorizarem. Se cristalizados, eles tornam-se tóxicos, perturbando a vida da família e o desenvolvimento psíquico da criança que se sente isolada na sua dor.
É preciso, porém, ter a consciência de que «a aprendizagem da convivência e da partilha não se faz de um dia para o outro. Haverá  episodicamente muitos conflitos entre os irmãos», assegura Otília Monteiro Fernandes, que são, de resto, os problemas mais comuns dentro da família. Desiludam-se os que julgar que os seus filhos, «nascidos no amor», acrescenta Marcel Rufo, «se vão entender perfeitamente».

Liberdade e supervisão

As crianças de hoje não são menos ciumentas que as de ontem, nem a sua agressividade é maior. Na verdade, nos dias que correm é dada mais atenção a este tipo de manifestações, inteiramente «proibidas» em tempos passados, em que os filhos temiam de tal maneira a autoridade dos pais que não se atreviam a exprimir as suas rivalidades e os seus ciúmes. Atualmente, nas sociedades modernas, eles sentem-se mais à vontade para o fazer, e as famílias estão cada vez mais sensibilizadas e atentas ao desenvolvimento psíquico infantil e aos sinais que os filhos lhes dão sobre o que sentem e pensam. Ainda bem que assim é, porque, assegura Otília Monteiro Fernandes a «expressão livre das rivalidades entre irmãos na infância e na juventude, torna muito mais fácil a relação quando chegarem à idade adulta». Nessa altura, sentirão menos necessidade de «ajustarem contas com o passado». Aos pais cabe «não uma ingerência mas uma supervisão, sem a qual, muitas vezes os mais novos –  em princípio fisicamente mais frágeis – poderão ficar esmagados sob o peso da tirania dos mais velhos». Outros especialistas reforçam esta ideia, chamando a atenção dos pais para a importância da vigilância como garantia do respeito pelos interditos, da proteção dos mais fracos, do controle da violência entre os membros da fratria e da necessidade de colocar limites e referências. Se não o fizerem, reinará a lei do mais forte.

Numa outra perspetiva

A hiper-responsabilização do filho mais velho em relação aos irmãos mais novos, em concreto, é sentida com um peso esmagador que muitas vezes resulta num desejo de perfeição absoluta da parte da criança precocemente investida de responsabilidades, tal como sentimentos de medo e culpa de não corresponder às expectativas dos pais. Os filhos mais velhos não devem ter nenhum papel na educação dos mais novos, sublinha Claude Halmos, psicanalista francesa. É aos pais que compete essa tarefa. Quando um primogénito tenta compensar a desresponsabilização parental, não lhe restam forças para construir a sua própria vida nem para ajudar os seus irmãos, porque não tem possibilidade de lhes dar as referências que os mais novos precisam. Sentindo essa impotência como uma falha pessoal, facilmente se culpabilizam, com toda a gravidade que isso implica.
Amor e singularidade. Se as preferências declaradas geram graves desigualdades e sofrimento nos filhos, também é verdade que o amor distribuído por todos os filhos não é, nem pode ser, «igual» em termos da sua qualidade, mas apenas no sentido em que eles devem ser amados «na justa medida que cada um necessita», salienta Otília Monteiro Fernandes. «Se cada um se sentir bem com o que recebe, não há reclamações», o que é sinal de «não haver nem se sentir a injustiça» na fratria.

As razões de amarmos diferentemente os nossos filhos são múltiplas, mas podemos começar por destacar as diferentes circunstâncias em que cada um vai nascendo, e do tipo de disponibilidade parental, física ou psíquica com que as crianças podem contar. Mas não é tudo. Outro fator marcante é o progresso da aprendizagem que entretanto os pais vão adquirindo em relação às formas de lidar com os filhos, pela oportunidade de aprender, com o tempo, a corrigir erros e práticas. O segundo e o terceiro filho vão certamente beneficiar dessa experiência.
Contas feitas, o melhor que lhes podem ensinar, é a amarem-se a si próprios, nomeadamente ajudando-os a descobrir e a valorizar a sua singularidade. «Não é o lugar ocupado na fratria que importa», sublinha Marcel Rufo, mas sim «a própria criança, a sua personalidade, o seu desenvolvimento, a sua capacidade de adaptação». Os irmãos são forçosamente diferentes, com personalidades, temperamentos e estilos próprios. É fundamental «tirar de dentro para fora o que de melhor possuem», como talentos, criatividade, competências, capacidades, tudo o que é único e singular. É a condição para encarar o mundo com otimismo e confiança.

OS FILHOS…

Filho mais velho
Se foi muito desejado, se correspondeu às expectativas e se beneficiou de proximidade e exclusividade parentais, tenderá a desenvolver determinadas características como um certo conservadorismo e a comportar-se como «crescido». Os pais são tentados a depositar nele uma série de expectativas, especialmente se for rapaz. É «dominante e líder», identificando-se com  a autoridade dos pais. Depois do nascimento do irmão mais novo, os pais «solicitam-lhe que se recoloque na família e assuma, agora, o papel de mais velho». A delegação de cuidados , pretende compensar a «destronação. Representa o poder estabelecido e é o detentor do statu quo familiar.

Filho do meio
Devido à sua «posição fraternal híbrida», os filhos do meio têm uma posição indefinida no seio dos irmãos devido à menor atenção e interacção familiar de que dispõem. Podem ter têm baixos índices de auto-estima, sentimentos de inferioridade, de insegurança e abandono, sobretudo quando a diferença de idade relativamente ao irmão mas velho é significativa. Esta situação não se verifica quando o irmão do meio é o único rapaz ou a única rapariga no grupo de irmãos. Porque não terem as vantagens do mais novo nem os direito do primogénito, crêem-se «expulsos e abandonados». São solitários, independentes, cooperativos, bons negociadores, competitivos e adaptáveis, pouco convencionais, criativos, imaginativos e intuitivos.

Filho mais novo
Grosso modo, o irmão mais novo é o oposto do primogénito. Embora considerado o bebé da família, mimado e irresponsável, tem que lutar por um espaço onde possa «edificar a sua identidade». São menos convencionais, mais criativos e sociáveis do que o mais velho e mais seguros que os do meio, porque não foram destronados. Podem sentir-se negligenciados pelos pais ou deixados de fora do mundo dos adultos, mas se não tiverem apoio suficiente podem vir a ter condutas auto-destrutivas. Estudos confirmam a maior frequência desta posição fraternal entre os consumidores de drogas e de álcool. Mas também podem ser super-protegidos pelos pais que desejam retê-los no núcleo familiar para que lhes sirvam de amparo na velhice.

Filhos únicos
Crescem relativamente isolados, muito próximo do mundo dos adultos, com sentido das responsabilidades e missão a cumprir, o que também é típico dos mais filhos mais velhos. São autoritários, líderes e pouco sociáveis. A atenção parental exclusiva de que desfrutam, desde que «cuidadosamente doseada e, portanto, não sufocante, é-lhes benéfica e proporciona desenvolvimento de boa auto-estima», graças «a intensa e especial valorização da sua pessoa no meio familiar». Isso dá-lhes confiança para enfrentar, com sucesso, o  mundo. Se forem educados num ambiente sociável, não serão tão «inadaptados». Mas se são alvo de hiperatenção e hiperpreocupação, poderão ter dificuldade no processo de separação-individuação e independência. A grande interacção com os pais, favorece maior desenvolvimento cognitivo e motor.

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